Artigo

Os primórdios da história do Esperanto

1º Congresso Universal de Esperanto
1º Congresso Universal de Esperanto, em 1905

1 - Historiografia do Esperanto

É difícil definir com exatidão o que está incluído na história do Esperanto, devido à amplitude e dispersão das facetas que o compõem.

A pré-história do Esperanto diz respeito, de forma estrita, a tudo aquilo que existiu antes de 1887 no campo da comunicação internacional neutra ou, de forma ampla, àquilo que se coaduna com o contexto de comunicação internacional, diversidade linguística, criação e morte de idiomas, língua franca e etc. Dessa forma inclui-se desde propostas de línguas que já não possuem (ou nunca possuíram) uma comunidade de falantes, como por exemplo, Universalglot (1868) e Volapük (1879), até o que idealistas, pensadores, filósofos e intelectuais produziram a respeito ou com base no anseio da comunicação mundial sem barreiras linguísticas. Igualmente se incluem aspectos culturais (mitos, fábulas ou crenças como, por exemplo, a Torre de Babel).

A história do Esperanto como língua propriamente dita, ou seja, como um conjunto de elementos linguísticos que constituem a fala e a escrita, abarca um período que começa na idealização, passa pela publicação do projeto, a transição de projeto para língua em uso e chega aos dias atuais. Trata-se de estudar o que se mantém igual hoje, o que se mudou e como que se deu esse mantimento e essas mudanças. Dá-se ênfase à análise dos movimentos progressivos de alteração e tranformação de sentidos, uso de estruturas e estilos, conformação e criação de novas palavras e terminações para novas realidades tecnológicas. Diga-se, de antemão, que a estrutura fundamental da língua que era falada e escrita no final dos anos de 1800 e no começo dos anos de 1900 é igual à estrutura da língua falada e escrita atualmente. O Esperanto têm uma estabilidade que se baseia numa atitude consciente da própria comunidade de falantes, impedindo rompimentos bruscos.

A história das pessoas que usaram e usam o Esperanto refere-se ao estudo biográfico e social daqueles que adotaram para si a língua (a maioria) ou daqueles que cresceram tendo a língua no ambiente familiar, sendo assim nativos em Esperanto. Esse contexto historiográfico engloba os percursos pessoais de figuras centrais do movimento esperantista: ativistas, professores, escritores, cantores, artistas de forma geral e personalidades que apesar de não participarem ativamente no movimento esperantista, falavam o Esperanto ou dele eram simpatizantes.

Livro em esperanto na estante
O anuário (Jarlibro) da Associação Universal de Esperanto - UEA contém informações de várias organizações esperantistas pelo mundo.
O anuário é publicado desde 1908.

A história do Movimento Esperantista é a história dos esforços para apoiar, ensinar e divulgar o Esperanto. Representa o surgimento de organizações internacionais (Associação Universal de Esperanto - UEA, Associação Anacionalista Mundial - SAT) ou nacionais (a Liga Brasileira de Esperanto, por exemplo). Compreende também o apoio de movimentos religiosos e/ou filosóficos (Catolicismo, através dos papas que conheciam ou falavam Esperanto, como João Paulo II; Espiritismo e Religião de Deus/LBV, no Brasil; Oomoto no Japão; Uonbulismo, na Coréia; A Fé Bahá'í, no Oriente Médio) ou de movimentos sociais e profissionais (movimentos trabalhista, humanistas, de profissionais liberais).

A história da cultura e da produção cultural em Esperanto contempla os elos conceituais e de identidade transnacional desenvolvidos em volta do Esperanto (língua e movimento), mais o resultado do esforço em utilizar a língua na literatura (original e traduzida), na música, no rádio e na televisão, nos periódicos impressos (revistas, jornais, boletins), na internet, nos hobbies e etc.

2 - O ponto de partida

Casa de Zamenhof
Imagem: a casa onde Zamenhof nasceu, uma foto dele quando jovem e outra já depois de adulto. L.L. Zamenhof nasceu na Polônia, cidade de Białystok, da Província de Grodno, em 15 de dezembro de 1859, e morreu em Varsóvia, em 14 de abril de 1917. De família judaica, cresceu num ambiente plurlíngue. A mãe falava com ele em Iídiche e o pai, em Russo. Zamenhof estudou medicina em Moscou e formou-se em oftalmologia.

Tudo começou na década de 1870. Białystok, que atualmente faz parte da Polônia, mas na época estava sob domínio do Império Russo, o império dos czares, era uma cidade quadrilíngue: lá se falavam Polonês, Iídiche, Russo e Alemão. Nessa cidade, um jovem vivenciava dolorosos ferimentos psicológicos, crucificado que estava entre quatro comunidades, quatro religiões, quatro línguas, quatro alfabetos, quatro ódios. E Ali, mais do que em outros lugares, o simples fato de você se exprimir em um idioma era motivo para ser rotulado. Ou a pessoa se expunha ao desprezo, ou buscava cumplicidade. O processo de idealização do Esperanto se desenrolou sob um pano de fundo de identidades etno-culturais exacerbadas. Se um polonês tinha um problema administrativo para resolver, seria impensável esperar que o funcionário russo falasse a língua de seu interlocutor. Só com a mortificação do orgulho próprio um polonês balbuciava sua solicitação em Russo.

Rilke, poeta alemão, disse um dia que um escritor escreve porque ele não consegue impedir a si mesmo. O jovem Zamenhof lançou as bases do Esperanto pela mesma razão: ele não poderia fazer de outra forma. As identidades culturais eram vividas, em Białystok, como mutuamente agressivas. Ora, sua primeira manifestação era a língua e o sotaque. Nesse contexto, empregar a língua do outro não era tão somente reconhecer-lhe a superioridade contra a qual o amor próprio revolta-se, era também sujeitar-se a uma infinidade de acrobacias gramaticais, lexicais e fonéticas, era percorrer um terreno repleto de armadilhas que pareciam colocadas lá para melhor fazer a pessoa cair no ridículo e na inferioridade.

Google homenageia Zamenhof
Todo dia 15 de dezembro (data de nascimento de Zamenhof) comemora-se o "Zamenhof-tago" (Dia de Zamenhof). Em 2009, no 150º Dia de Zamenhof, o doodle do Google exibia em homenagem a bandeira do movimento esperantista. Ver no site do Google

Aquele clima de hostilidade e de humilhações tocava o jovem Zamenhof. A situação era intolerável. Era preciso fazer alguma coisa para que cada pessoa, preservando totalmente sua própria cultura, pudesse se comunicar com os outros sem aqueles ferimentos de identidade sociocultural que formavam a trama da vida quotidiana em Białystok.

Para tanto, fazia-se necessária uma língua que não pertencesse a nenhum povo e cujas estruturas seguissem o movimento natural da expressão linguística; uma língua em que não fosse preciso fazer acrobacias, uma língua acessível aos pequenos, aos esquecidos, aos sem-título.

Zamenhof tinha 17-18 anos e ainda estava no ginásio quando preparava a versão inicial do Esperanto. Em 1878, essa primeira versão ficou pronta. Ela se chamava "Lingwe universala". No dia 17 de dezembro daquele ano, Zamenhof, dois dias após seu aniversário de 19 anos, apresentou aos seus colegas de classe o seu projeto inicial. Segundo o que o próprio Zamenhof contaria anos depois, ele e seus amigos cantaram em comemoração uma música de uma única estrofe (Malamikete de las nacjes). Posteriormente, o dia 15 de dezembro, aniversário de Zamenhof, se tornaria uma data festiva na comunidade esperantista.

Após a versão preliminar de 1878, destruída pelo pai de Zamenhof quando o filho foi estudar em Moscou, seguiu-se ainda várias outras tentativas nunca publicadas. Os poucos fragmentos que restam atestam a existência de novas versões finalizadas em 1881 e 1885.

protoEsperanto (1878)

Malamikete de las nacjes,
Kadó, kadó, jam temp' está;
La tot' homoze in familje
Konunigare sol debá.

Versão no Esperanto atual

Malamikeco de la nacioj,
Falu, falu, jam temp' estas;
La tuta homaro en familion
Kununuigi sin devas.

Tradução para o Português

Inimizade das nações,
Cai, cai, já é o momento;
Toda a humanidade, em uma família,
Deve unir-se.

Para mais detalhes da evolução do protoEsperanto, ler o livro "Lingvo kaj Vivo", de Gaston Waringhien, 1989, UEA, Roterdã.

3 - O resultado das várias tentativas

Zamenhof, já então com 28 anos, encomendou, com a ajuda financeira de sua esposa Klara, ao editor Jakov Kelter (cidade de Varsóvia, atual capital da Polônia), a edição de uma pequena brochura de 40 páginas. Essa foi a primeira publicação em livro do projeto de língua que se firmaria depois como Esperanto. Considera-se como data de publicação a data da segunda permissão da censura czarista (todo livro, pra ser publicado no Império Russo, precisava obter duas permissões: uma para o manuscrito e uma outra para a versão já impressa). A segunda permissão foi concedida em 26 de julho de 1887, segundo o calendário gregoriano; ou 14 de julho, segundo o calendário juliano. Assim, sempre em 26 de julho, comemora-se o Dia do Esperanto. Posteriormente a brochura passou a ser conhecida pelo nome de "Unua Libro", que significa "Primeiro Livro". Tratava-se de nada mais que um livro didático para falantes de Russo. Após a versão em Russo, foram publicadas versões em Polonês (1887), Francês (1887), Alemão (1887) e Inglês (1889). Estas cinco primeiras traduções estariam juntas quando em 1905 definiu-se o que seria convecionado chamar de Fundamento do Esperanto.

Unua Libro para russos
Versão polonesa

No "Unua Libro", que era assinado por Dr. Esperanto (um pseudônimo de Zamenhof), o projeto de língua se chamava originalmente "Lingvo Internacia" (Língua Internacional). Só depois, a partir do uso, em algum momento não determinado precisamente, foi que os primeiros falantes da nova língua que surgia substituíram o nome original pelo pseudônimo do autor. Supõe-se que de início começaram a falar sobre "a língua do Dr. Esperanto" e, pouco tempo depois, diziam apenas "a língua do Esperanto", “a língua Esperanto”, e esse se tornou o nome comum da língua.

    CONTEÚDO DO LIVRO (em 4 partes)
  • (1) — prefácio, de 28 páginas, no qual estão os primeiros textos em Esperanto:
    • — um modelo de carta
    • — dois poemas escritos originalmente em Esperanto: Mia penso (Meu pensamento) e Ho, mia kor'(Oh, meu coração)
    • — tradução de trechos de poemas de Heinrich Heine
    • — Pai Nosso (oração) e outras passagens da Bíblia
  • (2) — uma página com quatro cartões onde estava escrito uma promessa de aprender a língua se 10 milhões de pessoas prometessem o mesmo;
  • (3) — lições, incluindo um resumo com 16 regras básicas;
  • (4) — uma folha solta onde estava impresso um vocabulário Esperanto-Russo (947 palavras)
EDIÇÕES
  1. (Russo) - Dr. Esperanto. Mezdunarodnyj jazyk. Predislovie ipolnyj uchebnik: por Rusoj. Varshava: Kel'ter, 1887. 40 p.
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  2. (Polonês) - Dr. Esperanto. Jezyk Miedzynarodowy. Przedmowa i podrecznik kompletny: por Poloj. Warszawa: Kelter, 1887. 40 p.
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  3. (Francês) - Dr. Esperanto. Langue internationale. Preface et manuel complet: por Francoj. Varsovie: 1887, Kelter. 48 p.
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  4. (Alemão) - Dr. Esperanto. Internationale Sprache. Vorrede und vollstandiges Lehrbuch: por Germanoj. Warschau: 1887, Kelter. 48 p.
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  5. (Inglês) - Dr. Esperanto. International Tongue. Preface and complete method edited for Englishmen by J. St: por Angloj. Warsaw: 1888, Kelter. 39 p.
  6. (Inglês) - Dr. Esperanto's International Language. Introduction & Complete Grammar: por Angloj. English ed. by R.H. Geoghegan. Warsaw: Samenhof, 1889. 40 p.
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OBS.: A tradução inglesa realizada por J. St (Julian Steinhaus) em 1888 continha muitos erros e foi tirada de circulação pouco tempo depois de publicada. No ano seguinte o irlandês R.H. Geoghegan terminava uma nova tradução. O "Unua Libro" possui atualmente apenas caráter histórico, não sendo mais utilizado como livro didático. Muitos outros livros didáticos foram depois dele publicados seguindo novas abordagens de aprendizagem.

Uma versão traduzida para o Português da versão de 1887 é possível consultar no livro Fundamento de Esperanto - O Fundamento do Esperanto", Túlio Flores, Brasília: Brazila Esperanto-Ligo, 2015. 384 p.

ETIMOLOGIA DA PALAVRA ESPERANTO

A palavra "esperanto" é a forma substantivada do particípio ativo "esperanta", que, por sua vez, é formado da junção do sufixo "-ant-" (presente do participio ativo) ao verbo "esperi", que significa "ter esperança" (não confundir com o verbo português "esperar", que em Esperanto corresponde a "atendi").

esper-ant-o

"esper-": raíz do verbo "esperi" (ter esperança)

"-ant-": sufixo do particípio ativo presente

"-o": terminação para substantivos

Na língua portuguesa, também é possível encontrar a forma do partícipio ativo em substantivos:

Em Português Em Esperanto Significado
amante amanto aquele que ama, que está amando
migrante migranto aquele que está migrando, que costuma migrar
passante pasanto aquele que passa, que está passando
falante parolanto aquele que fala, que está falando
andante piediranto aquele que anda, que está andando
(esperançante*) esperanto aquele que tem esperança
Promessa de aprender o esperanto
Poema Ho mia kor

Nos primeiros textos, Zamenhof costumava, para fins didáticos, separar com vírgulas, apóstrofos ou barras as partes que juntas formavam uma palavra. Na imagem acima, retirada da versão russa do "Unua Libro", é possível ver o uso de vírgulas para mostrar as partes mínimas das palavras. O poema "Ho, mia kor'", escrito por Zamenhof, é uma das primeiras produções literárias escritas originalmente em Esperanto.

A figura ao lado, é o modelo do cartão onde as pessoas poderiam expressar a vontade de aprender a língua proposta. Estava escrito: "Eu, abaixo assinado, prometo aprender a língua internacional proposta pelo Dr. Esperanto, se for mostrado, que dez milhões de pessoas deram publicamente essa mesma promessa."

Ao mesmo tempo Zamenhof pedia que, se a pessoa não tivesse interesse em aprender, escrevesse "recusado" e reenviasse o cartão. Mas se a pessoa estivesse convencida e pronta pra começar logo a aprender, reenviasse o cartão com a inscrição "incondicionalmente". Foram aqueles que escreveram "incondicionalmente" que formaram a primeira leva de falantes de Esperanto.

Citação do Unua Libro de Esperanto
Citação do Unua Libro de Esperanto
Citação do Unua Libro de Esperanto
Citação do Unua Libro de Esperanto

As cinco primeiras versões do "Unua Libro" continham na capa a seguinte frase: "Para que uma língua seja universal/mundial, não é suficiente dar a ela o nome" [de universal/mundial]. Isso mostrava que Zamenhof tinha consciência de que uma língua não podia pretender ser universal sem possuir na sua própria estrutura os requisitos necessários. A língua que ele propunha internalizava na própria estrutura a ideia de mundialidade. Ela não era internacional apenas porque ele tinha dado esse nome a ela, mas porque ele tinha planejado a língua com uma estrutura apta a promover fácil apredizagem e comunicação.

Na contracapa lia-se a frase: "Uma língua internacional, de forma semelhante a toda língua nacional, é uma propriedade social. (Por isso) o autor cede para sempre todos os direitos pessoais sobre ela."

As duas frases eram também uma alusão ao Volupuque, língua criada pelo pastor alemão Martin Schleyer. Na época do lançamento da brochura de Zamenhof, o Volapuque ainda tinha alguns apoiadores. O autor do Volapuque, porém, considerava sua língua como propriedade particular, sendo ele o único com direito de acrescentar novas palavras.

4 - Períodos russo e francês (1887-1903)

Uma das primeiras ações de Zamenhof após a publicação da brochura que ficou conhecida por Unua Libro foi compilar uma lista de endereços de pessoas que já tinham aprendido o Esperanto. Os primeiros que simpatizaram e, por isso, resolveram aprender a língua proposta, eram quase todos do Império Russo. A série inicial da lista de endereços é de 1889, três anos após o início da nova língua. Ela listava, em 39 páginas, endereços de 1000 falantes que tinham comprado o livro de Zamenhof e reenviado o cartão com a inscrição "incondicionalmente". Muitos deles, durante os anos seguintes, se tornaram fervorosos apoaidores do Esperanto. Como exemplo, podem ser citados Louis de Beaufront, Leo Belmont, Aleksander Dombrovski, Franciszek Ender, Richard Henry Geoghegan, Antoni Grabowski, Wilhelm Heinrich Trompeter e Edgar von Wahl.

Quantidade, por país, de esperantistas da primeira edição (1889) da lista de endereços de Zamenhof
Império Russo Alemanha Áustria-Hungria Reino Unido França Suécia, Estados Unidos Turquia China, Espanha, Itália e Romênia
919 30 22 9 6 4 de cada 2 1 de cada

A compilação da lista, ora publicada como brochura, ora como rubrica no periódico “La Esperantisto" ou ainda, nos últimos anos, como parte do anuário Tutmonda Jarlibro Esperantista (Anuário Mundial Esperantista), da editora Hachette, durou até 1909 e a última edição (número 29) registrava quase 22 mil pessoas de todas as partes do mundo. A última pessoa listada tinha o número 21915.

Todos os esperantistas registrados recebiam um exemplar da compilação e eram estimulados a enviar suas cartas informando seu número (Ex.: "Esperantista nº 123")

A lista de Zamenhof atesta que nesse período (até 1909), o Esperanto ainda era pouco conhecido no Brasil. Dos 22 mil inscritos na lista, apenas 87 tinham endereço no Brasil. Isso representa ínfimos 0,3% do total. Todavia, possivelmente devido ao longo período de edição, a lista não era plenamente atualizada. Em 1892, o poliglota tcheco Valdomiro Lorenz é listado com o número 1276. Entretanto, logo no ano seguinte ele se mudou para o Brasil, onde viveu até sua morte, em 1957.

Quantidade de brasileiros (ou residentes no Brasil), por estado, na lista de endereços de Zamenhof (1889-1909)
TOTAL MG RJ SP PI MA, RS PE, PR CE RN SE
87 19 15 13 12 7 de cada 4 de cada 3 2 1
Gráficos dos inscritos na lista de endereços
Gráfico que mostra a evolução do número de inscritos na lista de endereços de Zamenhof
Gráficos dos inscritos na lista de endereços
Capa da primeira edição da lista de endereços.
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A fase russa do movimento esperantista durou até o começo do século 20. Essa fase é caracterizada, além, é claro, da existência quase que exclusiva em solo russo, pela pouca comunicação entre os primeiros esperantistas. Os dois principais elos de ligação entre eles consistiam na correspondência que mantiam com Zamenhof e na assinatura do pequeno periódico "La Esperantisto: gazeto por la amikoj de la lingvo Esperanto" - (O Esperantista: revista para os amigos da língua Esperanto).

Apesar de a revista "La Esperantisto" ser impressa numa cidade alemã — ela foi criada em 1888, quando o Clube de Nurembergue para uma Língua Mundial (Nürnberger Weltspracheverein) passou a apoiar a língua de Zamenhof —, a maioria dos esperantistas de então estavam concentrados no Império Russo.

O conteúdo da revista era composto principalmente de informações sobre o progresso do movimento esperantista e de excertos de obras literárias traduzidas e originais, além de discussões línguísticas, inclusive sobre possíveis reformas na língua. O escritor Karolo Piĉ afirmaria bem depois, em 1989, que na revista "La Esperantisto" os textos literários apareciam com tanta frequência que até seria correto chamá-la de "revista literária".

A revista "La Esperantisto" é historicamente importante para o desenvolvimento do Esperanto, pois foi nela que se começou a ampliação do léxico para além das 947 raízes presentes no "Unua Libro". Alguns dos neologismos não se sustentaram no tempo, sendo substituídos por outros. Por exemplo, a palavra "plakato" (cartaz), com origem na palavra alemã "Plakat", deu lugar à palavra "afiŝo", com origem na palavra francesa "affiche".

No ano de 1889, o periódico "La Esperantisto" tinha 113 assinantes. Em 1890, Zamenhof se viu obrigado a ter de arcar com todos os custos financeiros de impressão. Não tendo recursos suficientes, tentou fundar em agosto de 1891 uma sociedade para custear o periódico (Akcia Societo Esperantista). Sem obter sucesso, o periódico sairia de circulação no fim de 1891, se não fosse a decisão do esperantista W. H. Trompeter de pagar, a partir de 1892, pessoalmente todos os custos de edição. O apoio de Trompeter durou até 1894. Em 1894, o periódico tinha 717 assinantes, sendo 60% do Império Russo. Em fevereiro de 1895, a publicação de um artigo do escritor Leo Tolstói levou à proibição, por parte da censura czarista, da circulação da revista no Império Russo; causando a perda da maioria de seus assinantes. Juntos, o fim do apoio financeiro de Tompeter mais a proibição de circular no Império Russo, fizeram o periódico sair de circulação em agosto de 1895. Seus principais corredatores foram, assim, Zamenhof, Christian Schmidt (presidente do Clube de Nurembergue) e Wilhelm Heinrich Trompeter. A saída de circulação da revista marca também o fim da fase russa do movimento esperantista.

Capa da primeira edição da revista La Esperantisto
Capa da primeira edição da revista La Esperantisto
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Capa da primeira edição da revista Lingvo Internacia
Capa da primeira edição da revista Lingvo Internacia
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No verão de 1895, Valdemar Langlet, estudante universitário, visitou Vladimir Gernet, químico e diretor de um instituto de vinho em Odessa, cidade que na época pertencia à Russia. O objetivo era tratar do fim do periódico "La Esperantisto". Com o apoio de Gernet, ficou acertado a criação de uma nova revista em substituição à que acabava de sair de circulação. A nova revista se chamaria "Lingvo Internacia" (Língua Internacional) e seria publicada pelo Clube Esperantista em Uppsala (Klubo Esperantista en Upsalo). Vladimir Gernet foi o primeiro redator. Ainda em 1895, apereceu uma versão inicial da revista. A partir de 1896, ela começava a ser publicada mensalmente, com 16 páginas (o dobro da revista anterior), nos formatos 22x15, 25x20 e 21x13 cm.

De início, todos os textos eram enviados primeiro a Odessa, o que causou atrasos nas edições. Vladimir Gernet pediu então que o esperantista sueco Paul Nylén, vice-presidente do clube de Uppsala, ficasse responsável pela redação da revista. Vladimir Gernet ainda continuou a apoiar financeiramente a revista até o fim do ano de 1898. No começo de 1899, a revista deixou de aparecer por falta de recursos, porém, no segundo semestre, voltou a ser publicada com o apoio do esperantista, também sueco, Hj. Bäckström. A partir de 1900, a revista passou a ser impressa e distribuída pelo editor húngaro Paŭlo Lengyel. O esperantista sueco Paul Nylén continuou como redator até setembro de 1901. Durante um curto período, o próprio editor Paŭlo Lengyel tomou para si a tarefa de redigir a revista, passando depois a responsabilidade para Paul Fruictier, de Paris. Em setembro de 1904, o editor Paŭlo Lengyel mudou-se com sua família para Paris, levando consigo o periódico Lingvo Internacia. Lá ele fundou, junto com os esperantistas franceses Théophile Cart e Paul Fruictier a Sociedade Esperantista de Imprensa (Presa Societo Esperantista), que sustentaria nos anos seguintes tanto a revista Lingvo Internacia, quanto a edição e publicação de livros. A partir de 1907, Théophile Cart passou a ser o redator principal. A revista Lingvo Internacia foi redigida e publicada em Paris até 1914, quando a Primeira Guerra Mundial interrompeu não só a revista, mas o movimento esperantista na França e em grande parte da Europa.

Foto antiga de membros da Sociedade Esperantista de Imprensa
Foto de membros da Sociedade Esperantista de Imprensa, em 1905

O esperantista francês Louis de Beaufront (1855-1935) foi também um dos mais ilustres defensores do Esperanto durante a fase francesa do movimento esperantista. Beaufront aprendeu a língua proposta por Zamenhof na primavera de 1888 e logo começou a divulgá-la na região de Toulouse e Albi. Em 1889, seu nome estava presente na primeira edição da lista de endereços de Zamenhof. Em 1898, Beaufront fundou a revista "L'Espérantiste" (O Esperantista) e a "Société Pour la Propagation de l'Espéranto" (Sociedade para Divulgação do Esperanto). Ele foi a primeira pessoa a elaborar uma gramática completa do Esperanto, onde esclarecia como se exprimir diretamente em Esperanto, evitando influências muito fortes da língua nacional. A revista era em grande parte constituída de textos em Francês, mas, a partir de março de 1899, dispunha também de um suplemento em Esperanto (supplément de L'Espérantiste). Entre 1892-1905, ele escreveu uma série de livros didáticos e dicionários. Foi ele também o responsável por angariar o apoio da grande editora Hachette para que fossem publicados livros em Esperanto. Mas, apesar de durante muito tempo ele se considerar "conservador", refutando qualquer tentativa de modificar o Esperanto, acabou deixando o movimento esperantista para apoiar, em 1908, a língua Ido, que era uma espécie de Esperanto reformado.

Antes de deixar o movimento esperantista, Beaufront teve árduas e polêmicas críticas com Zamenhof. Tratava-se, todavia, não de questões gramaticais, mas da maneira como ele entendia ser a função do Esperanto no mundo. Beaufront queria que o Esperanto se tornasse uma língua de comércio. Ele não poupava palavras para denunciar o que ele opinava ser idealismo exarcebado por parte de Zamenhof. Ele construía para si, e para o Esperanto, uma imagem de defensor exclusivo da razão e da neutralidade, enquanto renegava a Zamenhof a posição de sonhador. Zamenhof, por outro lado, queria que o Esperanto fosse uma língua que congregasse todos os povos do mundo e, assim, trouxesse paz e harmonia à humanidade. Ele também pretendia que o Esperanto fosse uma língua útil para as artes. Para isso, ele passou toda a sua vida traduzindo para o Esperanto obras literárias, inclusive obras religiosas, como a Bíblia. A história do século que se seguiu, com milhares e milhares de traduções e originais sendo publicados em Esperanto, mostrou que o desejo de Zamenhof prosperou, enquanto que o papel do Esperanto no comércio, segundo defendido por Beaufront, permaneceu sempre como algo menor e restrito.

Tentativas de reformas gramaticais
Logotipo Ido

Desde a publicação do primeiro livro sobre o Esperanto, muitas reformas foram propostas. Às vezes, diziam respeito a pequenas alterações; às vezes eram reformas que modificariam toda a estrutura da língua proposta por Zamenhof em 1887.

O próprio Zamenhof, já na introdução ao "Unua Libro", deixa claro sua intenção: "...antes de editar dicionários completos e começar a edição de revistas, livros, etc., estou apresentando minha obra por um ano ao julgamento do público. Eu me volto a todo o mundo erudito com o pedido que me diga sua opinião a respeito da língua proposta. Todos me enviem por escrito aquilo que consideram necessário mudar, aperfeiçoar, acrescentar, etc."

No segundo livro publicado por ele, em 1888, Zamenhof esclarece que ele tinha a intenção de estar em silêncio ao longo de todo o tempo prometido, mas que a partir do dia em que ele lançou o livro, recebeu tantas cartas que não foi possível responder todas. Ele preferiu, por isso, responder publicamente. Assim algumas respostas serviriam para mais de uma pessoa.

Zamenhof começou a publicar nos primeiros periódicos as propostas que recebia. Parece, entretanto, que ele já havia chegado à conclusão de que nenhuma grande alteração precisava ser realizada.

Quando em janeiro de 1894, ele começa a publicar uma proposta de reforma que mudava consideravelmente a estrutura do Esperanto, foi apenas por causa de fortes pressões recebidas. De qualquer forma, em novembro do mesmo ano, a maioria dos esperantistas votaram contrários a qualquer reforma.

A proposta de 1894 não foi, porém, a última. A proposta de reforma que mais desestabilizou as convicções dos esperantistas da época foi aquela empreendida pelos franceses Louis Couturat e Louis de Beaufront a partir de 1906, culminando, em 1908, no que, na história esperantista, é chamado de "Ido-skismo" ou "Ido-krizo" (Cisão do Ido ou Crise do Ido). O Ido, um Esperanto reformado, tempos depois morreria devido a novas cisões que não paravam de surgir dentro do grupo idista.

Apesar de todas as propostas de reformas, nenhuma se manteve no tempo. A única mudança que se concretizou, proposta por Edgar von Wahl, foi a alteração do correlativo "kian" (quando) para "kiam". Essa alteração evitava confundí-lo com outra palavra que, em alguns momentos, teria a mesma escrita.

5 - Internacionalização

Do ano de 1903 até o início da Primeira Guerra Mundial, várias associações esperantistas nacionais foram fundadas. Foi também nesse período, principalmente a partir do 1º Congresso Universal, realizado em 1905, na França, em Bulongne-sur-mer, que o Esperanto passava a ser falado com mais frequência. Até esse momento, para muitos, a comunicação em Esperanto era exclusivamente escrita, através de correspondências e notícias em revistas.

Algumas associações esperantistas nacionais criadas no período
Ano de Criação Nome Local
1903 Svisa Esperanto-Societo Suíça
1905 Amerika Esperanto-Asocio Estados Unidos
1906 Deutsche Esperantisten-Gesellschaft
A partir de 1909: Germana Esperanto-Asocio
Alemanha
1907 Esperanto-Asocio de Finnlando Finlândia
1907 Bulgara Esperanto-Ligo Bulgária
1907 Irlanda Esperanto-Asocio Irlanda
1907 Brazila Esperanto-Ligo Brasil
1908 Zagrebo Kroata Esperanto-Societo Croácia
1908 Centra Dana Esperantista Ligo Dinamarca
1908 Pola Esperanto-Societo Polônia
1910 Itala Esperanto-Federacio Itália
1910 Kataluna Esperantista Federacio Catalunha
1911 Norvega Esperantista Ligo Noruega
1911 Aŭstralia Esperanto-Asocio Austrália

O primeiro Congresso Universal de Esperanto foi um marco no movimento esperantista. Naquela ocasião, a comunidade esperantista aprovou dois documentos que dariam estabilidade ao progresso do Esperanto como língua e movimento: A Declaração de Boulogne (Bulonja Deklaracio) e o Fundamento do Esperanto (Fundamento de Esperanto).

A Declaração de Boulogne foi escrita por Zamenhof e endossada pelos participantes do primeiro congresso. Ela continha cinco parágrafos que definiram o que era Esperantismo. Também definiu a neutralidade política e religiosa da língua, e ressaltou que o Esperanto estava em domínio público e podia ser usado de qualquer maneira, uma vez que o criador tinha abrido mão de quaisquer direitos a ela desde seu princípio.

Na Declaração de Boulogne, explicitava-se que "o Esperantismo é um esforço em divulgar no mundo inteiro a utilização de uma língua neutralmente humana, a qual não se intrometendo na vida interna dos povos e nem um pouco objetivando jogar de lado as línguas nacionais existentes, daria a pessoas de diferentes países a possibilidade de intercompreensão mútua."

No parágrafo dois declarava-se que "os amigos da idéia de uma língua internacional, tendo consciência de que disputas teóricas conduzirão a nada e que o objetivo só pode ser atingido pelo trabalho prático, já desde muito se agruparam em volta dessa única língua, o Esperanto, e trabalham pela sua divulgação e pelo enriquecimento de sua literatura."

O parágrafo três deixava claro que o Esperanto não era propriedade exclusiva de ninguém, nem em nível material, nem em nível moral. O mestre da língua seria o mundo inteiro e cada um que desejasse utilizá-la. Aqueles que teriam poder sobre a essência da língua seriam sempre aqueles que no mundo esperantista tivessem sido aclamados como os melhores e mais talentosos autores.

Insitia também que o Esperanto não tinha nenhum legislador próprio e não dependia de nenhuma pessoa em especial. Todas as opiniões e obras do criador do Esperanto teriam, de modo semelhante às opiniões e obras de qualquer outro esperantista, um caráter absolutamente privado e nunca obrigatório. O único fundamento da língua Esperanto, obrigatório de uma vez por todas para qualquer esperantista, seria a pequena obra "Fundamento de Esperanto", na qual ninguém teria o direito de fazer mudanças. O Fundamento do Esperanto seria a partir dali a única base linguística imodificável para os falantes da língua. Todos os esperantistas seriam recomendados a imitar o estilo contido no Fundamento.

Até hoje, o Fundamento mantém seus status, apesar de seu peso regulador ser menos importante que nas épocas iniciais do movimento. O Fundamento consiste de quatro partes: o prefácio, uma gramática, uma coleção de exercícios e um dicionário universal; retirados dos cinco idiomas nacionais em que o Unua Libro havia sido publicado: Russo, Francês, Alemão, Polonês e Inglês.

Por fim, a Declaração de Boulogne definia que seria chamado de esperantista toda pessoa que conhecesse e usasse a língua Esperanto, independentemente para quais objetivos. Pertencer a alguma organização Esperantista seria recomendável, mas não obrigatório.

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Participantes do Primeiro Congresso Universal de Esperanto, em Boulogne-sur-Mer, França, em 1905.

6 - Uma reflexão: é aceitável continuar a apostar na utilidade do Esperanto?

Por certo que, no primeiro Congresso Universal, os usuários da língua se compreendiam perfeitamente, mas por que alguém levaria a sério um pequeno grupo de extravagantes? Na ótica dos salões parisienses, que, na época, davam o tom para todos e para tudo, a língua não era feita para seduzir. Ela estava cheia de k e de j. Ela dava a impressão de estranheza e de barbárie. Toda a intelectualidade do mundo, ou quase isso, a rejeitava. E havia ainda, eles diziam, a falta de realismo do autor que absurdamente escolhera consoantes com acento circunflexo que não existiam em nenhuma gráfica, de sorte que quem desejasse publicar qualquer coisa naquela língua, era preciso começar por fazer fundir novos caracteres. Ora, tenhamos um pouco mais de bom senso! - diziam os pragmáticos. Apostar na sobrevivência dessa língua era jogar dinheiro pela janela.

A guerra de 1914 explode. Zamenhof morre em 1917 (não sem antes publicar um artigo onde convocava todos os diplomatas a instigarem, após finda a guerra, o uso do Esperanto entre as nações e assim evitarem novos conflitos). Mas quem aceitaria apostar nessa língua órfã, símbolo de relações entre iguais em um mundo agitado pela lei do mais forte? Ao chegar nos anos 20, na Liga das Nações, a delegação iraniana propõe adotar o Esperanto nas relações internacionais. Houve espanto geral! E toque de combate por parte das grandes potências. Era preciso enterrar aquele projeto perigoso para a supremacia cultural das grandes potências. Esses países influentes e ricos e seus delegados não recuaram e utilizaram da mais desavergonhada má fé. Uma vez mais, o projeto foi ridicularizado e descartado. Honestamente, depois disso, quem ainda teria apostado na sobrevivência do Esperanto?

Eis o surgimento de Stalin e Hitler. Para Hitler, o Esperanto era a língua dos maçons e da conspiração judia; para Stalin, a língua do cosmopolitismo burguês. Nos anos 40, esses dois homens exerciam o poder na quase totalidade da Europa continental. O Esperanto foi proibido, seus estoques de livros foram destruídos, bom número de seus partidários foram enviados para os campos de concentração. No Japão, na China, na Espanha e em Portugal, os regimes no poder praticaram em relação a ele uma política menos violenta, mas que ia no mesmo sentido. Em que alternativa racionalmente alguém apostaria naquela época, senão pela morte do Esperanto no curto prazo?

O fim da segunda guerra mundial viu a entrada em cena da tradução simultânea. Esta resolvia aparentemente o problema de comunicação nos congressos e conferências, mas, de fato, ela mal disfarçava a evolução da supremacia incontestada do Inglês. Estava claro para todos que o Inglês tendia ao monopólio nas relações internacionais. Era a língua das agências de notícias, das multinacionais, da edição científica assim como das canções ao som das quais, no mundo inteiro, dançava uma juventude vestida à moda norte-americana.

O ano de 1987 chega e o centenário do Esperanto não era aquilo que os pioneiros do movimento esperantista pensavam que seria. Todavia, o Esperanto não havia sido abandonado e muita gente estava contente em poder comemorar o que já tinha sido feito e, ao mesmo tempo, planejar os próximos cem anos que começavam.

Em face desse Golias de dificuldades, o Esperanto era e ainda continua a ser um Davi, pequeno a ponto de ser para a maioria praticamente invisível. Vendo os rivais diante de si, quem, racionalmente, vai apostar nele? Como apostar numa língua que não é apoiada por um movimento presente nas grandes mídias, que é ignorada pelas potências do dinheiro? Uma língua sobre a qual os grandes meios de comunicação se calam, e que muitos intelectuais denigrem ou consideram natimorta? Exaustivamente agredida ao longo de toda sua história, tanto no plano da política quanto no das ideias, ela encontrou apenas simples aliados que dispunham de poucos recursos. E as palavras de Zamenhof parecem ainda ressoar do ano de 1888, ao receber os primeiros cartões de pessoas que tinham decidido não esperar 10 milhões de promessas para começar a aprender a língua proposta:

Citação do segundo livro de esperanto
Dua Libro, 1888.

Vindo ainda mais uma vez ante ao estimado público, eu sinto o dever de antes de tudo agradecer o público leitor pela viva simpatia mostrada à minha iniciativa. As muitas promessas que recebi, entre as quais grande parte com a inscrição "incondicionalmente", as cartas com encorajamentos e conselhos - tudo aquilo me mostra que minha profunda fé na humanidade não me enganou. A boa genialidade da humanidade acordou: de todos os lados vêm ao trabalho multidões que ordinariamente seriam negligentes pra qualquer nova iniciativa; jovens e velhos, homens e mulheres apressam-se a trazer sua pedra para a grande, importante e utilíssima construção. Viva a humanidade, viva a fraternidade dos povos, viva eternamente!

Se nos fundarmos sobre critérios objetivos, como a produção de livros, a participação nas reuniões internacionais, a área geográfica coberta pelos pequenos anúncios da imprensa dos falantes de Esperanto, a quantidade de manifestações, as emissões regulares por rádio, o número de localidades onde a língua de Zamenhof está representada, etc., nós percebemos que, com altos e baixos, seguindo os acasos da vida política e econômica, o Esperanto nunca parou de se propagar e que, durante os últimos anos, sua propagação conhece uma notável aceleração, com considerável incremento a partir do surgimento da internet.

O Esperanto continua a servir de veículo a uma produção literária considerável, que continua se desenvolvendo. Ele é o meio de comunicação quotidiana de numerosos casais binacionais. Ele é a língua materna de um certo número de crianças. E o estudo objetivo da relação eficácia/custo o revela, na comunicação intercultural, bem superior ao Inglês ou aos modernos meios de tradução automática e também da interpretação simultânea. Isso porque a comunicação em Esperanto é um comunicação completa, direta, sem intermediários.

Apesar de o Esperanto não oferecer grandes riquezas, várias pessoas de todo o mundo, de diferentes gerações, continuam, mesmo sem perceber, a escrever "incondicionalmente" e a assinar seus nomes como novos aprendizes da língua de Zamenhof.


Baseado em um artigo de Claude Piron (1931-2008), artigos da Wikipédia e textos esparsos pela internet.